Estudos - Artigos

 

IDEÁRIO OLÍMPICO E O ESPÍRITO EDUCATIVO

AS PERSPECTIVAS AMBIENTAIS DA GRÉCIA NO  CONTEXTO  INTERNACIONAL

O DIÁGORAS

A MEMÓRIA GREGA

DE GRUPOS ASSOCIATIVOS, PHΙLÓPTOHOS & SIMILARES


IDEÁRIO OLÍMPICO E O ESPÍRITO EDUCATIVO

 

Constantino Comninos

PROFESSOR DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ,

 CÔNSUL HONORÁRIO DA GRÉCIA EM CURITIBA.

 

Após dois períodos olímpicos de espera, a Grécia, berço das Olimpíadas, recebe o reconhecimento dos membros do Comitê Olímpico Internacional e de toda a humanidade, com a escolha de Atenas como sede dos Jogos Olímpicos de 2004.

             Se, em 1896, a capital da Grécia fora escolhida, também como reconhecimento, desta feita, inaugura-se o terceiro milênio olímpico com a Grécia novamente na van­guarda.

Nós, gregos, os 11 milhões que na Grécia vivem e os 7 milhões que se encontram na diáspora e vieram fincar suas âncoras em todos os rincões do planeta, nos orgulhamos deste fato, pois, mais uma vez, vem repre­sentar o preito de admiração dos seres humanos, pelas ideias de nossos antepassa­dos. O mais importante aspecto desta sin­gularidade está no espírito educativo grego, ou seja, na Paidéia, que une o desenvolvi­mento da política e da literatura com o ide­al atlético. Daí, por que as Olimpíadas terem um significado ímpar para todos os gregos. O exemplo ainda prevalece. E não foi sem sentido que o Barão Pierre de Cou-bertin encontrava, nesta disputa entre povos, uma forma de dirimir as diferenças políticas, assim como os gregos na velha Hélade o faziam para um período de trégua - a pax helénica - Iríni - entre as suas Cidades-Estado.

Os Jogos Pan-Helênicos, festivais dedica­dos aos deuses, que ocupavam os gregos periodicamente, eram disputados em Olím­pia com a denominação de Jogos Olímpicos, dedicados a Zeus; em Delfos, os Jogos Píticos, dedicados a Apolo; ambos, a cada quatro anos. Os Jogos Némeus na Neméia -Argólida, homenageando Hércules e os Jogos Ístmicos em Corinto, dedicados ao herói Milikertes, mais tarde substituído por Poséidon, a cada dois anos. Os atletas que vinham de todos os pontos da Grécia dis­putavam as modalidades individualmente, nunca em conjunto. Geograficamente, só os Jogos Délficos estavam situados fora da Península do Peloponeso.

Entretanto, observa-se que as modali­dades esportivas vêm aumentando de ano para ano. Abandonam-se, em parte, o está­dio e o ginásio para disputar todas as for­mas de peleja que venham a provar e a demonstrar as habilidades e a força dos atletas. Na Grécia Clássica, os jogos eram disputados, a princípio, por atletas do sexo masculino. As mulheres passaram a ter autorização para participar dos jogos em olimpíadas dedicadas à deusa Hera, que, por este fato, levaram a denominação de Jogos Heréos, onde participavam apenas atletas virgens. O papel de juiz, inclusive, era exercido por mulheres.

Nas Olimpíadas Clássicas, iniciadas em 776 a. C. e interrompidas em 393 d. C. pelo Imperador de Bizâncio Theodósio I, havia apenas as seguintes modalidades de dis­putas: (l) corrida de carros (Quadriga), que inaugurava os Jogos e alinhava até 40 car­ros, estes em forma de triângulo, percorren­do cerca de 12 voltas pela pista do hipódro­mo, em total aproximado de. 15 quilômetros, disputa efetivada com carros puxados por 2 ou 4 cavalos; (2) corridas a pé (Dromos); (3) a dupla (Doólixos); (4) corrida com ar­mas (Oplitodromía); (5) a luta (Páli); (6) o pugilato (Plígmi); (7) o pancrácio (Pankrátion), que unia a luta e o pugilato; (8) o pentatlo (Pentátlion) que correspondia a cinco provas: saltos, corrida, luta, lança­mento de disco e o pugilato.

As olimpíadas também contavam com concursos literários. A mais destacada das obras desta disputa intelectual foram os famosos Epinícios de Píndaro, que, em odes triunfantes, homenageavam os vencedores. Estes, no final dos jogos, eram coroados com o galardão olímpico, a coroa constituí­da por ramos de oliveira sem frutos. Re­tornando às suas cidades, os vitoriosos eram reverenciados como heróis. E por onde passavam lhes era oferecida a Dáphni (o louro).

No momento só nos resta dizer, dentro da emocionalidade grega que nos é peculiar, que nos sentimos orgulhosos de ter inventa­do também esta forma de paz entre os homens, acreditando que, na disputa com ética, se possa educar o indivíduo com humanismo. Como gregos, herdeiros de uma cultura milenar, almejamos que, pelos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004, o mundo se torne menos beligerante, e que, no preparo destes próximos anos, o primeiro ano olímpi­co do novo milênio seja o divisor de águas entre o belicismo e a harmonia do espírito, e que a paz mundial venha a prevalecer entre os seres humanos.

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AS PERSPECTIVAS AMBIENTAIS DA GRÉCIA NO  CONTEXTO  INTERNACIONAL

 

                             Strátos Doúkas 1       

                                                                    Constantino Comninos  2

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1    Aposentado ex-Embaixador da Grécia no Brasil (2000-2003). Advogado, formado pela Universidade de Salônica, Grécia.  Cônsul da Grécia em Perth W.A., Cônsul no Rio de Janeiro, Conselheiro na Embaixada grega na Alemanha, Ministro Conselheiro da Embaixada grega na Iugoslávia, Embaixador Cônsul Geral em Nova Iorque, Embaixador no México, Diretor dos Departamentos de Assuntos da África Subsahariana e da Justiça e Assuntos Internos da União Européia no Ministério das Relações Exteriores da Grécia.

2   Cônsul Honorário da Grécia em Curitiba. Mestre em Educação – Gestão do Ensino Superior. Professor de Estudos Sociais e Ambientais, Economia Política e Política Internacional da  Pontifícia Universidade Católica do Paraná desde 1962.

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Sumário: 1. Resumo.  2.  Explicações necessárias.  3. Introdução. 4. O contexto.  5.

                 Objetivos. 6. Instrumentos e política nacional. 7. Cooperação

                 Internacional. 8. Cooperação Regional. 9. Cooperações Bilaterais.  10.

                Conclusão.  11. Referências.

 

 

1                    RESUMO

 O presente texto,   trata de conceituar e fundamentar alguns parâmetros sobre a  temática ambiental  quanto a alguns pontos teóricos e da aplicação de mecanismos  de política  meio-ambientalista adotados pela Grécia nos últimos anos.  Apresentar  as perspectivas de parceria estratégica e tática  que a  Grécia  vem mantendo com países fronteiriços e periféricos que se encontram envolvidos pela  problemática do habitat

           Palavras-chave: ambiental, política, cooperação, regional, bilateral, internacional.

 

 2       EXPLICAÇÕES NECESSÁRIAS

 

                        “The crisis in the world settlements persists and increases. The speed of urbanization continues to accelerate. Within man’s burgeoning settlements, the need for human dignity, for full participation by the citizen in the community, for the recovery of creation of neighborhood, for variety, for mobility has grown steadily more apparent. …. The next two or three decades will be critical in the race between increasing numbers and available   resources, between rising social tensions and the inventions of new kinds of community.”    

 

Declaration of Delos Ten, July 9-17, 1972

 

Este artigo é fruto de duas palestras de mesmo teor, pronunciadas pelos autores nas sessões de abertura do II Encontro Verde das Américas  (Doúkas), realizado em Belo Horizonte, MG em 21 de maio de 2002, sob o título “As Perspectivas Ambientais da Grécia no Contexto Internacional”, e no  Quarto Congresso  Internacional Sobre Planejamento e Gestão Ambiental Urbana – ECO URBS 2002 (Comninos), sob a égide do Instituto Ambiental Bioesfera, em  9 de dezembro de 2002 em Florianópolis. Quando da  construção  deste artigo, foram acrescentados  alguns pontos  que indicam uma outra face do papel da Grécia  no contexto internacional meio-ambientalista.

 

3                  INTRODUÇÃO

“Quais são as soluções que necessitamos? Quais as políticas que nós desejamos ver implantadas e porque?”

                                   

    Constantinos Doxiadis,

in “The Great Urban Crimes – we permit by law.”

 

          Nunca é demais repetir,  a preocupação que grande parte do mundo vem tendo   com relação ao meio ambiente, pois, passou a ser um tema que atinge a todos os seres vivos do planeta. Pode-se afirmar que  é o tema da atualidade.

 Tanto  Platão como  Aristóteles, dedicaram algumas páginas de suas obras   ao tema do habitat como elemento fundamental preservador da vida.  Mais de dois milênios se passaram,  e no século XX,   a presença grega continua nos encontros meio-ambientalistas. A Grécia  fez-se representar  desde o Encontro do Habitat em  Vancouver (DOXIADIS, 1974,1976)    em finais  dos anos mil novecentos e setenta (1976). Nessa ocasião,  assim como no decênio seguinte em  Nairobi, a obra do urbanista grego Constantinos Doxiadis, foi a viga mestra das discussões desses encontros, repetindo-se recentemente, no final dos anos mil novecentos e noventa,  na reunião do Habitat em Istambul, a antiga  Constantinopla .

 Lady Jackson, mais  conhecida nos meios acadêmicos por  Bárbara Ward, admiradora da obra de Doxiadis, sintetizou o Habitat de Vancouver em livro, ao  referir-se ao “planejamento urbano, a vida e a movimentação do homem  nas cidades modernas” dando à obra um título, a época,  alertador:  A Casa do Homem  (WARD, 1976).

  Doxiadis via os aglomerados urbanos com critérios fundamentados no humanismo e em  conceitos “quase” rígidos, exigência esta, própria da metodologia  que  permite a compreensão da vida diversificada que prevalece nos sistemas urbanos. Para tanto, estabeleceu em sua teoria dos assentamentos humanos (human settlements), denominada EKISTICS,   cinco áreas: homem, natureza, sociedade, abrigo, infra-estrutura. 

             Para a melhor compreensão destes cinco pontos, utilizou ciências auxiliares, como síntese da Ekística, quais sejam, as    componentes   social, política, cultural, educacional, administrativa, ambiental  e tecnológica.

 

A Etimologia do termo EKISTICS, está explicado com propriedade na contra-capa da Revista EKISTICS - ΟΙΚΙΣΤΙΚΗ – the problems and science of HUMAN SETTLEMENTS, editada pelo Athens Center of Ekistics of the Athens Technological Organization há mais de 40 anos como segue:

EKISTICS (modern Greek: ΟΙΚΙΣΤΙΚΗ) is derived from the ancient Greek adjective οικιστικός, more particularly  from the neutral plural οικιστικά (as “physics” is derived from φυσικά, Aristotle). The ancient Greek adjectives οικιστικός meant: “concerning the foundation of a house, a habitation, a city or a colony: contributing to the settling.”    This may be regarded as deriving  inbdirectly from another anciente Greek noun οικιστής, meaning “building,” “housing,” “habitation,”and especially “establishment of a colony, a settlement or a town” (alredy in Plato), or  “filling it with aanew settlers”; “setting,” ”being settled.” All these words grew from the verb οικίζω, “to settle,” and were ultimately derived from the noun οίκος, “house,” “home,” or  “habitat.”

The Shorter Oxford English Dictionary   contains a reference to an oecist, oekist  or oikist, defining him as: “the founder of an anciente Greek …  colony.” The English equivalent of οικιστική  is ekistics  (a noun). In addition, the adjectives ekistic or ekistical, the adverb  ekistically, and the noun ekistician are now also in current use. The French equivalent os ékistique, the German ökistik, the Italian echistica (all feminine).

 

 

A Declaração de Delos 10  (Delos, 7 a 17 de julho de 1972) sob os auspícios da World Society of Ekistics,   fundada por Doxiadis,  em funcionamento até hoje e que conta com membros associados em  uma centena de países, declaração essa firmada  por mais de setenta intelectuais consagrados do mundo, é peça de leitura obrigatória para  todos aqueles que se preocupam com o habitat, haja vista, ter antecipado em 1972, toda a problemática meio ambientalista que a humanidade está a se deparar  neste milênio que se inicia.  

 

A experiência de trabalhos em equipes multidisciplinares,   permite observar as realidades em outras óticas e em escalas diversas. Os problemas ambientais que assolam os sistemas urbanos, na perspectiva  de  urbanistas e  profissionais de outras áreas planejando regiões urbanas, interdisciplinarmente,   infere a importância de soluções rápidas quanto as questões de caráter social, econômico e político, quando se referem ao tema do meio-ambiente.

 

           Por outra face, a visão do educador, faz com que, “os saberes” ensinados só podem garantir a preservação do meio-ambiente via uma política educativa intensificada  na práxis  da pedagogia do habitat

 

Em período recente, dados os múltiplos cenários desta geometria planetária em que o mundo se encontra,  observa-se a necessidade de uma nova práxis diplomática, que pode ser desempenhada como uma espécie de diplomacia ambiental.  Tudo leva a crer que em matéria de habitat, os especialistas e, via de conseqüência, os  responsáveis por esta área de trabalho, qualquer que seja a especialidade exercida, mister se faz aplicar cada dia que passa o  saber das coisas como  parte de sua função, haja vista que, segundo os gregos antigos,   fazer acontecer como critério éticopráxis -   é função do apreender a fazer - poiesis (poiética) - tarefa  cotidiana de observação sistemática e controle efetivo, no caso,  dos procedimentos  ambientais.

         

O escopo do texto que trata das perspectivas ambientais da Grécia, está dividido no que segue:  o contexto,  objetivos, instrumentos,  política nacional, cooperação internacional, cooperação regional,  cooperações bilaterais, conclusão e bibliografia. 

         

4       O CONTEXTO

 

“A cidade, enfim, é uma comunidade completa, formada a partir de várias aldeias e que, por assim dizer, atinge o máximo de auto-suficiência. Formada a princípio para preservar a vida,  a cidade subsiste para assegurar a vida boa.”                                   

 

              Aristóteles, in Política                                               

 

          A Grécia é um país pequeno com cerca de 135 mil quilômetros quadrados, aproximadamente duas mil ilhas, e considerando o seu litoral entrecortado,  com 17000 km de fronteiras marítimas.  Ao norte, encosta seu território com o dos países balcânicos, sendo a área mais montanhosa, marcando a presença de florestas e poucas planícies, estas, na região nordeste, fronteira com a Turquia. A Grécia é um País  vulcânico por natureza. As  terras agricultáveis não ultrapassam 25% do território. Mesmo assim, a    agricultura é um segmento importante de economia grega, haja vista, que em suas mais de 5000 vilas, todo grego é um agricultor, gosta de sê-lo  e aprecia esta tarefa com a simplicidade típica de homem do campo; vivendo perto do litoral, é agricultor e se dedica também a pesca, como meio de vida e lazer.

 

A Grécia vem se destacando em índices de desenvolvimento humano, colocando-a, segundo o IDH das Nações Unidas, entre as 30 primeiras nações do mundo. No último ano, a Grécia atingiu a vigésima quarta colocação com uma Renda Nacional Per-Cápita de  US$ 16.000 ano, um índice de escolaridade invejável e uma esperança de vida ano nascer das mais altas do mundo.

 

A preservação das florestas é tarefa constante, uma vez, sendo a Grécia um dos países mais propícios ao turismo ecológico, considerando os baixos custos para o turista, todos os anos, os mochileiros invadem suas montanhas e ilhas, causando danos,  alguns irreparáveis, principalmente pela queima criminosa das florestas e poluição das praias.   

         

Este problema veio a afligir o país de tal forma, que o Governo da Grécia, entendeu ser a preservação do habitat uma das principais prioridades, e, dadas essas circunstâncias, foi criado o Ministério do Meio Ambiente, Planejamento do Espaço Físico e Obras Públicas, integrando nesta ordem de coisas, as questões ligadas ao habitat no território grego.

 

         

5              OBJETIVOS

 

                     “A experiência social pôde tornar-se entre os gregos o objeto   

        de uma reflexão positiva,   porque  se  prestava,  na  cidade,   a um 

        debate público de argumentos.”

 

Jean-Pierre Vernant

  In As origens do pensamento grego.

 

Com medidas de caráter global, principalmente após a entrada na União Européia em 1981, a Grécia consolida sua presença no cenário internacional via iniciativas na área do meio ambiente. Seus objetivos se coadunam em nível externo e em  termos nacionais com o (1) gerenciamento dos recursos hídricos, problema dos mais cruciais para um país onde o verão é causticante; (2) redução dos poluentes no ar, sobretudo nas grandes cidades, que concentram hoje, aproximadamente 80% da população do país e onde se nota uma grande participação industrial;  (3) proteção da natureza, pródiga desde os tempos homéricos,  um colírio para os olhos e um bálsamo para a saúde em todas as suas nuances; (4) incentivo ao desenvolvimento sustentável, medida esta  que vem  permitindo o equilíbrio do habitat.

 

 

6       INSTRUMENTOS E POLÍTICA NACIONAL

 

O homem (homo sapiens) está habituado a seus limites  pessoais de percepção do mundo exterior.”

 

In Encyclopédie de L’Écologie – Larousse.

 

 

          Para atingir os objetivos acima citados, mister se fez criar instrumentos capazes de enfrentar os problemas. Foi preciso aprovar leis que pudessem promover a política ambiental do país como um todo, salientando-se:  (1) a atualização e o aprimoramento  contínuos da legislação ambiental; (2) o controle da aplicação da legislação vigente; (3) o aprimoramento e descentralização da administração ambiental; (4)  a recompensa aos bons serviços prestados e punição aos maus usuários do meio ambiente; (5) o fortalecimento da participação de ONGs nos processos de tomada de decisões a respeito do meio ambiente; (6) a cooperação com o setor industrial para o maior êxito possível na aplicação dos instrumentos de política ambiental; (7) a circulação regular de publicações sobre as questões ambientais.

 

          A implementação de uma política nacional voltada ao meio ambiente, é ponto de honra para a Grécia, pois,  o impulso à política social e à política para o desenvolvimento uniforme do turismo, é um componente essencial do PIB grego e tem um peso contributivo de alto  significado  na economia do país.

 

          Notável é a incorporação à legislação nacional grega, o conteúdo das  resoluções e instruções normativas  adotadas no seio da União Européia. Destaca-se,  a inclusão  à Constituição Grega em vigência que data de 1975, quando a Grécia postulava se associar  à Comunidade Econômica Européia,  o Artigo 24 determinou a proteção do ambiente natural e cultural como obrigação do Estado.

 

 

7             COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

 

“O que é verdadeiro na política das cidades, ainda o é mais   na  política    das nações.”

 

Karl Deutsch, in Política e Governo.

 

          “O primeiro homem a medir o dióxido de carbono foi também o  

primeiro a descobrir  que o ar que respiramos não é uma única

substância, mas sim uma mistura de substâncias.”

                    

Jonathan Weiner, in  Os Próximos Cem Anos

 A Grécia participa das atividades de todos os organismos internacionais que se ocupam do meio ambiente, especialmente da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento, a Comissão Econômica para a Europa, o Comitê para o Desenvolvimento  Sustentável e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

     

A Grécia  está atenta às necessidades prementes na tomada de decisões  para afastar o perigo das mudanças climáticas. Para tanto,  criou  um Comitê Interministerial para tratar da temática da emissão de gases que provocam o  efeito estufa. De outro lado, a política ambiental nacional visa a diminuição significativa da emissão de dióxido de carbono para atingir as metas e resoluções estabelecidas pela União Européia, via instruções comunitárias  relacionadas ao Protocolo de Montreal para a proteção da Camada de Ozônio e para preservar a biodiversidade.

 

A Grécia assinou e ratificou a maioria das convenções internacionais para o meio ambiente, entre as quais: (1) o Tratado de Ramsar – 1971- para as terras aquáticas; (2) a Convenção de Bonn – 1979 -  para a conservação das espécies migratórias e animais selvagens; (3) a Convenção de Viena – 1985   -, o Protocolo de Montreal – 1987 – e as respectivas alterações – Copenhague em 1992 – para a proteção  da camada de ozônio; (4) a Convenção e Basiléia – 1989 – para o controle de transporte entre fronteiras de resíduos perigosos e sua disposição; (5) a Convenção de Londres – 1990 – para a prontidão, resposta e cooperação em caso de poluição de petróleo; (6)    a Convenção de Nova Yorque – 1992 – para a mudança climática; (7) a Convenção do Rio de Janeiro – 1992 -   para a biodiversidade;  (8) a Convenção de Paris – 1994 – para o combate à disertificação; (9) a Convenção de Viena – 1994 – para a segurança nuclear.

 

          O aprimoramento  da cooperação ambiental nos Bálcãs e no Mediterrâneo, cujo rico ambiente deve ser preservado, é uma das metas mais perseguidas pelas autoridades ambientais do país.  Daí a ativa participação da Grécia em vários fóruns internacionais, vindo a oferecer considerável apoio financeiro  a um elevado número de iniciativas mundiais.

 

          A Grécia tem conhecimento da necessidade premente de tomada de decisões para a proteção e afastamento do perigo das mudanças climáticas. Para atender este ponto, pôs em prática um programa nacional, colocando em funcionamento um eficiente mecanismo, por meio de um Comitê Interministerial, em um período de desenvolvimento econômico  do país, isto é,  quando do aumento das emissões de gases que provocam o fenômeno do efeito estufa. De outro lado, a política nacional visa a diminuição significativa da emissão de dióxido de carbono, com a finalidade de atingir as metas estabelecidas pela União Européia, tais como, colocando em prática,  instruções comunitárias relacionadas com o Protocolo de Montreal para a proteção da camada de ozônio, assim como, foram tomadas medidas especiais para a preservação da biodiversidade.

 

          Destaca-se,  que, no pouco tempo transcorrido desde que a Grécia se tornou membro da Comissão para o Desenvolvimento – 1998 -,   destina 0,2% de seu PIB para assistência técnica na proteção de meio ambiente contemplando os programas de cooperação para o desenvolvimento. Trata-se de um subsídio que atende os países fronteiriços com a intenção de ampliar esta atenção aos países destinatários.

 

 

8       COOPERAÇÃO REGIONAL

 

“Num período de internacionalização crescente, nenhum Estado pode definir seu futuro sem a participação de parceiros políticos, concorrentes comerciais e investidores estrangeiros.”

 

 Antonio Celso Alves Pereira,

In Os impérios nucleares e seus reféns

 

          Utilizando a massa crítica das universidades, institutos e ONGs do País,  e por meio de  parcerias que vem se estendendo aos países  dos Bálcãs, do sudeste da Europa, do Mar Negro e do Mar Cáspio, via Programa de Cooperação e Assistência na Área do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, desde 1999, com o objetivo de oferecer auxílio e cooperação aos países integrados a este  programa, a Grécia vem atendendo as seguintes temáticas: (1) gerência e classificação qualitativa das reservas de água; (2) combate à poluição industrial; (3) proteção das regiões turísticas do litoral;  (4) formação de novas tecnologias “limpas”; (5) economia de energia com o uso de fontes renováveis; (6) planejamento e aplicação de medidas e intervenções na área  industrial urbana; (7) transporte e (8) mudança climática.

 

          No tocante  a cooperação regional mediterrânea, a Grécia se ateve a atividades internacionais desde 1976, quando foi assinada a Convenção de Barcelona, que constituiu a base legal do Plano de Ação do Mediterrâneo. Em 1980, Atenas foi a sede do Congresso quando foi firmado o Protocolo de Atenas sobre a poluição por fontes terrestres.  Em 1982, foi estabelecida em Atenas a Unidade de Coordenação do Plano de Ação do Mediterrâneo e, em 1995, o Ministério do Meio Ambiente, planejamento do Espaço Físico e Obras Públicas delegou à Universidade de Atenas a responsabilidade de coordenar e fornecer  apoio científico ao programa Nacional de Monitoramento da Poluição – MEDPROL – que vem sendo colocado em prática abrangendo os principais golfos e regiões litorâneas da Grécia.

 

          A Grécia é membro atuante da Iniciativa dos Países dos Mares Adriático e Jônio,  postulado na Declaração de Ancona, firmada em maio de 2000 pela Albânia, Bósnia-Herzegóvina, Croácia, Eslovênia, Itália e igualmente pela presidência da Comissão Européia. Esta iniciativa envolve turismo, economia, transportes marítimos, meio ambiente, preservação das rotas do Adriático e do Jônio, colaboração com as universidades, cultura, segurança e combate ao  crime organizado.

 

          Participante da Organização para a Cooperação Econômica dos Países do Mar Negro, juntamente com a Albânia, Azerbaijão, Bulgária, Geórgia, Moldávia, Romênia, Rússia, Turquia e Ucrânia. Este fórum impulsiona, com base nas resoluções da Reunião Ministerial dos países-membros, realizada na cidade de  Salônica em 1999, a cooperação entre as partes nas áreas  da economia, do comércio, da energia, dos transportes, das telecomunicações, ampliando-se pela proteção ambiental, controle da poluição, avaliação de riscos, gerência integral das zonas costeiras, gestão ambiental das regiões turísticas,   troca de tecnologias e ênfase às atividades científicas setoriais.   

 

9       COOPERAÇÕES  BILATERAIS

 

 

“Devemos reconhecer a diversidade de nossas raças, de nossas religiões, de nossas culturas, de nossas tradições históricas de nossos tipos de organização econômica.”

 

      Victor Gunewardena, in Um outro Desenvolvimento.

 

A Grécia  vem reforçando a cooperação ambiental bilateral com países próximos as suas fronteiras. O Ministério do Meio Ambiente, Planejamento do Espaço Físico e Obras Públicas,  vem empreendendo esforços dignos de menção com vistas a formular, assinar, ratificar, colocar em vigor e fazer cumprir os acordos bilaterais firmados com os países envolvidos. Em 1995, foi firmado um acordo de cooperação bilateral com a República de Chipre para a proteção ao meio ambiente e o desenvolvimento sustentável,  que funciona  como ponte entre a política ambiental de Chipre e a política ambiental da União Européia, assimilada pela Grécia.

 

          O mesmo vem se verificando com relação a Grécia e a Geórgia – 1997 – via Memorando de Entendimento, de  acordos firmados com a Turquia e a Ex-República Iugoslava da Macedônia no ano 2000, ratificado e posto em vigor via acordos correspondentes com a Albânia, Bósnia-Herzegóvina, Bulgária, Croácia, Eslovênia, Iugoslávia, Romênia e Ucrânia.

 

10     CONCLUSÃO

 

                     “A tomada de consciência ecológica pode levar a aceitar um 

          esforço comum.”

 

      Raimundo Panikkar, in Um outro Desenvolvimento.

 

          A política  diplomática de externalidade que a Grécia  vem empreendendo com  nações ex-beligerantes e grupos étnicos entre si, prova que o espírito democrático, levado à mesa de negociações e frente a ações de interesses comuns, pode transformar os ex-adversários em parcerias salutares de convivência, paz, harmonia e sabedoria pública, onde, a ameaça ao habitat, pode unir os homens  na luta para a convivência do bem comum.

 

Esta é a atual façanha dos gregos da modernidade, que,  mantendo uma política pacifista e uma diplomacia ativa de bom entendimento, vem,  via mais de três mil empreendimentos empresariais e governamentais nos países limítrofes e periféricos, procurando levar o seu conhecimento aqueles que desejam usufruir, em um mundo de incertezas, a certeza  das novas tendências  internacionais que envolvem os países da “mãe-terra” (TOYNBEE, 1978).

 

 

11      REFERÊNCIAS

 

PEREIRA,  Antonio Celso Alves. Os Impérios Nucleares: relações

internacionais     Contemporâneas. Rio de Janeiro, Graal, 1984.

 

ARISTÓTELES. Política. Edição Bilíngüe. Editora Vega, Lisboa, 1998. 

 

BIROU, Alain e HENRY, Paul-Marc. Um outro desenvolvimento. São Paulo,

        Edições Vértice, 1987.

 

DOXIADIS, Constantinos. Ekistics – an  Introduction to the Science of

          Human  Settlements. New York, Oxford University Press, 1968.

 

____________ & PAPATOANNOU, J. G. Ecumenopolis – the Inevitable City of

the  Future. Athens, Greece, Athens  Center of Ekistics, 1974.

 

__________ et al. Anthropopolis – City for Human Development. Athens,

Greece, Athens Center Ekistics,  1974.

 

___________. Building Entopia. Athens, Greece, Athens Center of Ekistics, 

       1974.

 

___________. ACTION for Human Settlements. Athens, Greece, Athens

Center of Ekistics,  1976.

 

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, PLANEJAMENTO DO ESPAÇO FÍSICO E

OBRAS PÚBLICAS – República Helênica. Documentos e Tratados firmados pela República Helênica com Organismos Internacionais, países, e outros de várias naturezas. 

 

TOYNBEE, Arnold. A Humanidade e a  Mãe-Terra – uma história narrativa

do Mundo. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978.    

 

WARD, Barbara.     A Casa do Homem. Rio de Janeiro, Editora Artenova, 1976.

 

WEINER, Jonathan. Os Próximos Cem Anos. Lisboa, Gradiva, 1991.

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O DIÁGORAS

       Nosso avô, Estefano Lambros que nos levou (1982 e 1988) para aprender ler e escrever grego na Ilha de Rodes  (onde ele nasceu em 1910), no seu último dia de vida  (19.08.1996)   falou:

“KÁTHANE DIAGÓRA UKÍS OLIMPÓN ANÁVISSIS”

      Faz oito anos que isso ocorreu, mas só  recentemente descobrimos o que ele queria dizer:  eis a  história de Diagóras, hoje   codinome  do aeroporto  internacional da Ilha de  Rodes, na região de Yálissos.

                                          Daphne Araújo Lambros

                                          Hida  Maria  Araújo Lambros

   Curitiba, junho de 2003.

 

 

          Famoso atleta de pugilato , campeão olímpico  foi Diagóras, filho de Damágito de Rodes, o mais destacado de todos os antigos lutadores  segundo os historiadores da época.

          Quando venceu  na Olimpíada de 464     a. C., convidou Píndaro  que compôs em sua homenagem  um hino, o hino olímpico, que é um dos mais belos hinos que ficou conhecido  como hino da glória, mas, dedicado não somente a Diagóras, mas também o hino de glória de sua pátria Rodes.        

          O  poeta compara o hino  com uma taça de ouro, cheia de vinho, que o pai da noiva oferece ao noivo  por ocasião do casamento e assim, o torna  admirável esplendor entre os convidados.

          O hino é como um néctar das musas para os vencedores  de OLIMPIA e do PHITON e é considerado abençoado aquele que consegue uma vitória notável  e é acompanhado  pelas liras e pelas flautas.

          O hino de  Diagóras, é também hino de Rodes, filha de Afrodite e esposa de Hélio (sol). Hino do   atleta gigante que venceu  às margens do rio ALFEO e perto da fonte de CASTÁLIA.

          Tanta impressão causou a ode de  Píndaro, que os Ródios (habitantes de Rodes) a gravaram com letras de ouro no templo da LINDÍA ATHINÁ (hoje, a alta atração turística de Lindos em Rodes).     

          Da gloriosa carreira  do grande atleta, os seus compatriotas providenciaram dar-lhe uma origem divina. Sua mãe, diziam, estava no campo onde devido ao muito calor, foi obrigada a se refugiar no templo de HERMES. Lá, o deus (Hermes)  a encontrou dormindo e ......

          Na realidade, Diagóras  era de origem real pois seu pai ADAMÁGITOS era neto do rei  de YÁLISSOS (local onde se encontra o aeroporto internacional de Rodes).

          Diagóras era um homem gigante  com belo semblante, andar elegante e sua forma escultural  causava admiração.

          PÍNDARO o chama de “o grande” e admite que sua altura deveria ser de 2,20m.

          Na sua especialidade DIAGÓRAS  venceu a 79ª  Olimpíada  (464    a.  C.), venceu duas vezes em NEMÉIA, 4 vezes em ÍSTMIA, muitas vezes em Rodes e muitas competições em Atenas, em Argos, em Égina,  em Platéas, Tebas, Mégara, Pelíni,  Lícia, etc..

Era chamado de felizardo, pois quando lutava não caía, não se escondia nem evitava o competidor. E este seu método próprio, dava orgulho a todos os seus seguidores e admiradores e também  muita alegria  e satisfação aos espectadores. Todos estes sabiam estimar a retidão, a garra  e a técnica  do Diagóras  reconhecendo assim o resultado da vitória, a observância rígida do regulamento  que tornava a vitória inquestionável.

          A fisionomia de DIAGÓRAS mostrava grandeza e nobreza, magestade e dignidade. Por isso enquanto viveu a glória embelezou sua vida e mereceu muitas honras e passou uma herança divina aos seus descendentes.

          E ainda os deuses destinaram a este homem glorioso uma morte doce e honrada.

          Era o ano de 448 a.  C., na 83ª Olimpíada. Pai orgulhoso, DIAGÓRAS,dentro do estádio, acompanhava seus filhos que lutavam. O povo o rodeou, o abraçou e o cumprimentou quando pela segunda vez seu nome ecoava  na voz do Arauto,   que  anunciava a vitória de seus filhos. DAMÁGITO de  Diagóras, ródio, vence o pugilato.     ACUSÍLAOS de Diagóras, ródio, vence o pancráceo.

          Os modestos rapazes  recebem a coroa de louros e suas faces viris brilham pela incomparável alegria. Correm. Esquecem a sagrada luta que lhes custou as vitórias tão desejadas. Lá na arquibancada com o povo  estava DIAGÓRAS, o grande DIAGÓRAS, o grande campeão do pugilato.  Correm. Se abraçam. O pai está profundamente emocionado. Os rapazes com um movimento espontâneo colocam suas coroas de louros no pai. O povo brada: “Bravo!  Bravo! VIVA DIAGÓRAS, três vezes feliz”.

          Os jovens em seu entusiasmo levantam seu pai e o colocam em seus ombros  e avançam para a arena. Querem mostra-lo ao povo. Querem mostrar seu orgulho para os espectadores. O povo os aclama e joga flores e louros. É o triunfo da vida de DIAGÓRAS.  E então, dentro da multidão ouve-se uma voz. É um Espartano que diz:

          ΚΑΤΘΑΝΕ ΔΙΑΓΟΡΑ ΟΥΚ ΕΙΣ ΟΛΥΜΠΟΝ  ΑΝΑΒΗΣΗ,

          “Morra finalmente DIAGÓRA. Nada mais te resta do que subires ao Olímpo”.

          Não era ódio nem inveja. Era medo dos deuses que a grande alegria acarreta-se  desrespeito. E a voz era excitante e ao mesmo tempo aconselhadora: “Chega Diagóras. Depois de tanta glória, suba ao Olímpo para te tornares deus”.

          O feliz Diagóras ouviu aquela voz.

          E nos ombros de seus filhos, abraçado a eles, muito feliz, declinou sua cabeça bi-coroada e deu o último suspiro.

          Não subiu ao Olímpo, mas ficou imortal. 

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 A Memória Grega

               

     Constantino Comninos

 

Professor Universitário.

Mestre em Educação.

Cônsul Honorário da Grécia em Curitiba

 

Sumário: 1. Resumo.  2. Introdução. 3. Da cidade e do Estado gregos.  4.   Do

                destino grego. 5. Dos espaços consagrados.       6. Da unidade    na

                          diversidade. 7. Das façanhas dos gregos.    8.    A identidade grega.   

                          9.  Conclusão.  10. Referências.

 

 

1        Resumo

 

Este  artigo  trata  de  apresentar  um  resumo interpretativo  da memória grega

sob a ótica histórico-cultural. É um trabalho sinóptico abordando  vários aspectos da vida grega antiga e o legado de sua herança civilizatória representou  para a posteridade universal e para a formação do moderno Estado Nacional da Grécia após 1821.     

 

          Palavras-chave:  memória, cidade, Estado, destino, espaços, unidade, diversidade, façanhas, identidade.

             

2       Introdução

  

“A queda do poder micênico,  a   expansão      dos dórios no    Peloponeso, em  Creta  e até  em  Rodes inauguram uma nova idade da  civilização grega.”

 

                          Jean-Pierre Vernant                       

 

          A Memória Grega se perde nos tempos longínquos da história da humanidade. Daí ser   este    um tema de estudo cujos parâmetros delimitam-se a  quase 4.000 anos de um processo civilizatório sem igual.  Para entender a Grécia,   figurativamente as grécias (Toynbee, 1981), localizadas ao tempo de alguns decênios, ou  as delimitadas por  alguns séculos ou ainda,  as grécias englobadas no horizonte dos milênios de sua existência,  necessário  se faz uma catársis, ou seja, um retorno ao passado para chegar  ao presente com o espírito aberto à novas descobertas, pois, a cada   incursão, sempre algo de novo se descobre ou uma nova civilização se descortina.  Tantas são as civilizações encontradas até o presente,  e,  a cada dia que passa, tantas outras ressurgem dentre as pedras escavadas, que se pode dizer sem receio que  a cada  momento, o espírito grego nos prega peças  e nos coloca diante de novos fatos a serem desvendados.  Tudo o que se encontra, é obra do destino, que os gregos de todas as grécias, tão bem souberam vivenciar.

          Conhecer todas as grécias é tarefa assaz desafiante.  Conquanto as descrições  generalistas sejam difíceis na época em que vivemos,  é preciso saber navegar em síntese por todas as áreas  do conhecimento grego, para,  a partir de um ponto escolhido,  compreender a essência de sua grandeza  e dialeticamente,   poder ver com olhos críticos, todas as suas especificidades.

           Não é preciso ser generalista  das grécias,  mas, é   preciso também, mesmo que se queira abordar ou conhecer  pequenas facetas de sua história, não somente escavar, mas garimpar as imagens  cambiantes da inteligência humana  que os gregos souberam  produzir em todas as fases  e perfis  de seu processo civilizatório. 

As civilizações têm estruturas próprias. Elas aparecem e desaparecem.  Entretanto, nenhuma civilização como a grega, teve a oportunidade de legar dentro do macro cenário das civilizações, seu espírito universal. No  mega-cenário mundial constituído por inúmeras civilizações,  algumas delas  duram alguns espetáculos enquanto outras, nem sequer mais são lembradas. Com as grécias é diferente. Nos  momentos ansiosos vividos  em cada escavação, por mais que o cenário se mantenha, novos espetáculos ressurgem das cinzas tal qual Fênix, e tantas   outras realidades emergem com  tantos outros mais  paradigmas  à  desvendar.

          Aquele que percorre atentamente as trilhas da civilização generalizadamente falando de todas as grécias,   vai encontrar com certeza, muitos pontos comuns,  posto que,  a Memória Grega só pode ser medida, na amplitude da revolução intelectual  realizada por milênios a fio,  no horizonte longínquo de  sua história.

           O mais importante dos paradigmas gregos está na idealização de seus  mitos que acompanham seu eterno destino. O primado da soberania - a vontade de decidir deterministicamente -, a cosmogonia   - a  idéia do universo como condutor da vida, a teogonia - a origem dos deuses -,  a filosofia  - fundamento da própria soberania e da justiça -,  a procura do lúdico  - a prática esportiva integrada à  educação como Paidéia -, a idealização do belo  - a estética -, foram concebidos na evolução  dos grandes cataclismas quer naturais, quer produto da imaginação, que os gregos  vivenciaram (Vernant, 1977).

          Suas observações  levaram os gregos a acreditar que o destino os conduziria à fatalidade com a destruição da humanidade, e que para  salvá-la, tinham que  reconsiderar os caminhos passados,  reconstituindo-os em  novas  etapas conquistadas, com a crença de que os sobreviventes  e seus descendentes,  deveriam ser os responsáveis  para refazer a civilização do porvir.  E assim é até hoje. O atavismo que se encerra no íntimo de cada  grego e o que ele sente e que é parte orgânica do ethos grego, é  indestrutível. A prova deste paradigma está presente e persevera na vida de cada grego até os nossos dias, quando observamos o eterno heroismo que conduz este povo, para manter a soberania  das fronteiras geo-políticas de seu território e os elementos basilares de sua organização social. 

          Assim são as grécias que estamos a tratar. Elas representam uma somatória de nuances interligadas, indestrutíveis, inventivas, críticas, estéticas, éticas,    repletas de exemplos os mais significativos.

          O pensamento grego é constituído por inúmeros acontecimentos que estão presentes  e se encontram  esparsos ordenadamente por toda a Memória Grega.  Vale dizer,  que o  pensamento grego é mais do que paradigmático, haja vista, que os gregos   souberam  ao longo de numerosos períodos históricos,   forjar  suas idéias, elaborar seus pensamentos, mantendo uma linha de raciocínio lógico na ordem filosófica de suas concepções quer de vida política,  econômica e  social,  quer quando em libações oferecidas à seus deuses, produto de uma imaginação singular..

          A sociedade das grécias é própria e incomparável, pois, tudo o que seus atores realizaram naquele cenário como que esculpindo o belo, pode ser admitido pelas sociedades posteriores que utilizaram aqueles mesmos  paradigmas das grécias, produto de uma ordem societária,  estrategicamente imaginados.

 

3       Da Cidade e do Estado Gregos

 

“A característica mais notável da Grécia antiga, a razão profunda de todas as suas grandezas e de todas as suas fraquezas é ter sido repartida numa infinidade de cidades que formavam um número correspondente de Estados.”

    

                    Gustave Glotz

                                               

          A polis  - a cidade-estado -, foi a maior invenção dos gregos (Jaguaribe, 1982).  O domínio das instituições vem desde o surgimento da polis, garantindo o primado da palavra  e da justiça.  Os princípios condutores da polis, se mantinham pela força de expressão  e  adequada argumentação   nos  atos decisórios  do  chefe  - arché -, em defesa dos interesses do povo - demos. Recitar Homero ou  Hesíodo - e isto se mantém tradicionalmente  como prática educativa até hoje na Grécia moderna - e  no conhecimento da escrita -, sempre foi e sempre será o binômio interativo  da Paidéia  grega, isto é, a  educação integral do homem-cidadão, independente de ser grego livre, servo ou mesmo estrangeiro que conviva no  território da Cidade-Estado.

          A Polis é representada também  por um universo espiritual, cujo destino é a essência de seu comportamento  social, onde as relações entre os homens,  tomam formas originais de alto sentido público.  Para discutir as leis e promulgá-las, os gregos redescobriram os meios que iriam manter a sua subsistência  para depois reencontrar as artes que embelezam a vida”.  Na organização da Polis,  acrescentaram a Sabedoria  “que tem por objeto as realidades divinas” (Vernant, 1974) .

          Desejar conhecer as grécias, mister se faz percorrer sua paisagem física. Os mares que banham o território grego,  cujo desenho parece o perfil peninsular da  mão do destino que adentra para o mar, favoreceu a sociedade das civilizações gregas  para a ocupação de  todos os pontos de sua peculiar geografia vulcânica e pedregosa, esta, misturada ao colorido diáfano azulado de seu céu límpido e  na transparência de  suas águas cristalinas.

         Como a  Grécia dos dias de hoje é  muito observada pelas pedras que compõe sua paisagem, essas mesmas "pedras falam” de sua história. Foi nas pedras da Grécia  que o cinzel do artista deixou a marca de seu desenho estético, aceito na transmissão da  praxis como  ética representativa da obra concebida.  Foi nessas mesmas pedras, graníticas ou marmóreas,  que os gregos dessas grécias entalharam  os seus pensamentos éticos.  Nessas mesmas pedras que falam  por si só, encontramos o que há de melhor produzido  pelo espírito humano, em que pese as adversidades do território, vulcânico por natureza, com áreas agricultáveis limitadas, com planícies esparsas  e montanhoso em sua maior extensão.

 

4       Do Destino Grego         

 

“A necessidade de defesa mútua, ... exprime-se, como tudo o que é social na Antigüidade,  sob forma religiosa. Cada cidade tem  sua divindade, tal como cada família tinha a sua.”

                 

  Gustave Glotz

                                        

          O destino é uma atitude deificante para os gregos. Todas as suas adversidades, recorrendo aos deuses de sua imaginação, os gregos souberam  superar com o pensamento e com obras,  todas  as vicissitudes do destino que os gregos das  grécias  tiveram que se defrontar ao longo dos milênios de sua existência.

Considerando que o título utilizado para estas considerações,  tem como  ponto de partida o título genérico de  Memória Grega, nos obrigamos a  fazer certas  distinções  que se está a utilizar neste texto,  para melhor se fazer entender o tema em si.

          Explico. Como se vem notando, diria,  que tratar da Memória Grega, não é tarefa das mais fáceis.  Exige do estudioso,   muita atenção, para não se perder nos meandros de suas armadilhas, muito bem construídas por todas as civilizações que pelas grécias se desenvolveram. Ao  percorrer os inúmeros corredores que  compõem o labirinto das concepções de vida das grécias, é preciso  permear os princípios que fundamentam a vida societária das várias Cidades-Estado da época Clássica, e até das civilizações  palacianas que as antecederam em todos os períodos   ex-ante    ex-post  (Mumford, 1965) .

          Há um legado histórico, que pode ser considerado como  uma  herança, cujos valores, transmitidos de geração para geração, levou os gregos de todas  as grécias a criar a organização da sociedade ideal para os homens. Para tanto, em todos os períodos que foram o palco de cenários onde os atores políticos e os estrátegos desempenharam seus papeis, desencadeando  lutas entre as Cidades-Estado, serviram para tornar os gregos mais hábeis lúdica e intelectualmente, a ponto de estabelecer  com o tempo, regras que foram seguidas em toda a estrutura de suas concepções ideológicas.  

          Alguém pode se perguntar, o que são afinal  as grécias citadas neste texto?!... As várias grécias que se está a tratar, por mais que elas estejam presentes em  ocasiões dispersas e em episódios distintos, têm uma  identidade própria, para não dizer, uma única identidade.

          Os gregos que viveram  e os que antecederam a época clássica, assim como os  gregos do período helenístico - ou pós alexandrino -, mesmo na decadência com a ocupação romana, ou os gregos bizantinos pós Constantino, os gregos de bizâncio que enfrentaram os francos e os otomanos, estes,  até e após a Queda de Constantinopla em 1454, os gregos revolucionários  idealizadores da grande idéia”, isto é, os que lutaram  pela Independência a partir de 1821 e os gregos que institucionalizaram o Estado Moderno Grego, com todas as fases de adaptação até os nossos dias,  têm uma identidade própria, que é só deles e indissociável em sua personalidade.

          Para garantir essa identidade, os gregos   souberam superar  as confrontações que o destino lhes conduziu porque tinham pontos comuns que os levavam a um autoentendimento, primeiramente,  pela organização de suas polis - transplantada em muitos segmentos que englobavam os princípios norteadores da vida grega e levados  modernamente para dentro das cidades e vilas da atualidade -,  e pela língua que falavam  - contudo existir uma rica dialetologia geograficamente distribuída.

 

5       Dos Espaços Consagrados

 

 

“Não existe melhor lugar, para, num confronto, mostrar a relação paradoxal entre o espírito e o corpo através do qual aquele se expressa, o corpo social que se torna uma paisagem humanizada ou uma cidade, do que a polis grega e, acima de tudo, Atenas.”

                             

  Lewis Mumford

 

Seguindo os caminhos que levam à identidade grega, os gregos criaram inúmeros deuses que adoravam em situações diferenciadas (os mesmos deuses em todas as cidades), ou os mitos, sacralizados e consagrados até os dias de hoje.  Essa identidade tem uma força eterna nos  espaços que os gregos criaram nas suas Cidades-Estado como as ágoras, os teatros,  os estádios e as palestras, hoje integrados  naturalmente na paisagem das vilas, das cidades e das metrópoles modernas da Grécia contemporânea.

          Mais.  Os gregos souberam fazer prevalecer suas  instituições sociais, passando pelas  formas de governo,  sistemas econômicos e regimes políticos  que  utilizaram para desenvolver e determinar os princípios que nortearam sua concepção  idealista de política para todos os homens do seu universo, invenções essas,  consagradas pelo Mundo Ocidental e presentes,  pode-se dizer,  na  atualidade do nosso cotidiano.

          Nas ágoras, as atuais praças, os gregos discutiam,  utilizando este espaço como assembléia permanente  para filosofar, estabelecer as regras de governo e de conduta, comerciar, e pela força do voto, eleger e destituir os governantes, pois, esta área nobre de suas   Polis, era o ponto ideal para a construção de inúmeros edifícios públicos, com galerias que permitiam durante as estações chuvosas, nunca deixarem de se reunir. Aliás, essa prática de espaço aberto à assembléias, também era utilizada nos acampamentos militares (Mumford, 1965).

          Nos teatros abertos - conhecidos como anfiteatros -, os gregos apresentavam suas peças em festivais religiosos em honra a  Dionísio, onde salientava-se o drama e a comédia.  No drama  -    tragédia -, além do sacrifício libatório,  as representações  traziam à público o mais profundo sentimento humano, quer quando retratavam as questões palacianas na disputa pelo  poder, quer quando referiam-se às questões rurais de sua sociedade. Seus ensinamentos penetram profundamente na psichê  humana, a ponto da psicanálise moderna,  utilizar sua conceituação mais profunda para a explicação e posterior solução  dos dramas pessoais e coletivos da humanidade.  Na comédia, a crítica ao poder constituído era representado com ironia,  laconicamente, contudo a presença obrigatória dos governantes nos anfiteatros, palco natural desses  festivais libatórios.

          Nos estádios,  além  da  busca espiritual  e na  prática do lúdico, o espírito olímpico era desenvolvido. Esses  encontros eram  sistematicamente periodizados no tempo, e institucionalizados  como festivais religiosos dedicados aos deuses, com leis próprias, severas quanto ao desempenho dos atletas que vinham de todas as grécias, para numa espécie de trégua  de seu conturbado universo, se permitirem  encontrar soluções para os problemas globais que os afligiam. A cada quatriênio, intercalados por festivais lúdicos similares  desenvolvidos  em outros centros da Grécia Continental,  prevalecia a pax helênica.

 

6       Da Unidade na  Diversidade

 

“A cidade antiga é, pois, acima de tudo, um teatro, no qual a própria vida comum adquire os caracteres de um drama, engrandecidos pelo próprio artifício do costume e do cenário, pois o próprio cenário amplia a voz e aumenta a estatura aparente dos atores.”

 

                                                                                                            Lewis Mumford

 

          Percorrendo os caminhos de suas descobertas, os  estudiosos  que vêm garimpando  o território grego na busca de compreender o pensamento daquelas civilizações, encontraram  tanta similitude em meio a tanta diversidade, que o processo civilizatório grego, como dissemos,  é incomparável com o de outras civilizações.  Para tanto,  subdividiram as camadas arqueológicas  com títulos como Período Heládico I, II, III, Fase Heládica Inicial ou Média (Idade do Bronze),   Micênico I, II,  Minóico Tardio II,  Tróia V, VI, e daí a fora (Toynbee, 1970). 

          Não é difícil entender o porque desta preocupação didática para o conhecimento  das grécias, pois, as colônias de suas Cidades-Estado,  resultado da expansão imperialista desencadeada na  conquista de outras  terras,   algumas longínquas de sua base  orgânica, podiam estar situadas do Peloponeso ao Épiro, de Creta às  Cícladas, da Ática à Ásia Menor, como a cidade de Bizance fundada cerca de 900 anos a. C. às margens do Bósforo, perto do Mar Negro, como colônia dos Megaritas, Cidade-Estado essa,  localizada cerca de 50 Km ao sul de Atenas,  que viria a ser o sítio privilegiado pela sua situação geográfica, para a fundação da Cidade de Constantinopla em 330 d. C., como   sede do Império Romano do Oriente, e que deu o nome ao Império Bizantino que só ruiu em meados do século XV da era Cristã. 

          Outro exemplo que prova o significado  da divisão arqueológica citada, é que encontram-se na ilha de Rhodes  vestígios de povoados micênicos e minóicos.    

          Por outro lado, observe-se que  os gregos falantes da língua grega, ainda hoje utilizam sob a forma de grego moderno, a mesma língua, assim estruturada,  que remonta, pelo menos, 2.000 anos a.C.. Entre tantos exemplos que podem ser citados, lembro,  que quando ocorreu  a queda de Cnossos, em Creta, cerca de 1400 a.C., havia um comércio bilateral entre  o Mundo Micênico e a Síria, classificado no Período Heládico Tardio III, conhecido como Micênico II (Toynbee, 1980).

          Com a descoberta da escrita das tabuinhas”  de Cnossos, encontraram-se muitas semelhanças  com o Linear B ligado a Civilização Micênica, esta, retratada por Homero na Guerra de Tróia (Vernant, 1997).

 

7       Das Façanhas Gregas

 

“As revoltas nascem de minudências mas não visam minudências: sempre grandes objetivos.”

 

                     Aristóteles

 

          Outro ponto  expressivo das grécias que  é parte da Memória Grega, são as façanhas dos gregos. De heróis e deuses, a  Grécia está repleta. As inscrições imortalizadas em suas pedras, em sua cerâmica, em seu bronze, no ouro de suas jóias,  falam e retratam sua vida e seu destino, estética e eticamente,  portanto, a origem e o fim de cada homem e de suas realizações.

          Um dos aspectos mais significativos que ilustra a existência da Grécia Moderna como façanha histórica e não menos grandiosa, é o fato  que da segunda metade  do século XII d.C., para a frente, os gregos da Grécia Bizantina estiveram sob uma pressão  crescente dos Cristãos Ocidentais de um lado e dos Turcos Otomanos de outro.

          O Império Bizantino destacava-se - e seus pósteros ainda destacam  em muitos segmentos, sua grandeza econômica -,     geopoliticamente localizado na encruzilhada do mundo o que lhe dava vantagens estratégicas que via de conseqüência, garantia sua posição  comercial, portanto,  era muito rico para não ser admoestado, só que também, sua estrutura social que teve períodos de decadência,  levou-o à vulnerabilidades militares que foram exploradas pelos seus inimigos e falsos amigos, historicamente comprovadas.   

          Abrindo um parêntesis, pode-se dizer,  que   as grécias  são o resultado de heranças, legadas de uma Grécia para outra, onde os gregos, fossem micênicos,   minóicos,   jônios ou   cicládicos, gregos do Épiro ou macedônios, gregos helênicos,   gregos bizantinos  ou, na contemporaneidade,   gregos modernos, sempre tiveram que conviver e exercitar, como todas as civilizações,  seus  sucessos e fracassos.

          Outra façanha que caracteriza os gregos é a luta pela sua liberdade. Por mais que no horizonte dos  milênios de sua existência, contudo a democracia ateniense até o presente esteja dando lições políticas e os períodos autoritários tenham tido presenças intermitentes nas cidades-estado, os gregos sempre souberam  pugnar no caminho que os levaria ao encontro das formas mais democráticas de vida  política, econômica  e social.

          Desde as  épocas pré-homéricas, dos caminhos de Ulisses, ou repelindo invasões estrangeiras,  no alvorecer do Mundo Clássico, passando  pela unificação dos Estados Gregos  - cidades-estado -, com e pós Alexandre Magno que   levou  o helenismo aos confins do mundo de sua época,  pela palavra evangelizadora de  São Paulo e a cristianização  do  mundo civilizado pelos gregos com incursões pelo mundo bárbaro - segundo os gregos,  todos aqueles que não gregos ou que não tenham sofrido a influência da helenização  -,   entrando pela Era Bizantina, e, com a queda desse Império, a luta para a expulsão do invasor turco-otomano que na Grécia se estabeleceu  por cerca de 4 séculos e a luta desencadeada para a conquista da Independência Política na Era Moderna, os gregos continuaram  a lutar sem esmorecer  até hoje, para garantir suas  legítimas fronteiras e sua soberania nacional.

          Englobados em uma cadeia de fatos  que o determinismo grego facultou, vejamos alguns pontos que contemplam  o conceito de  identidade helênica na atualidade,  como façanhas   desencadeadas   pelos gregos modernos, capítulos de alta significação de sua história. 

          Em plena era dos nacionalismos, os gregos anatólios aliados aos  gregos continentais, utilizando estratagemas políticos e militares, ambicionaram  ressuscitar o Império Romano do Oriente e de restaurar Constantinopla, outra vez,  como sua capital.  Ressalte-se que potências européias, interessadas em enfraquecer o nacionalismo turco, incentivaram essa façanha, que foi um dos fracassos dos gregos modernos, pelo próprio fato dessas mesmas potências não cumprirem seus acordos.  Daí resultou a maior das sagas dos gregos modernos, quando mais de dois milhões de gregos se refugiaram na Grécia Continental e algumas de suas ilhas, em um esforço sobre-humano do Governo Grego, que atendeu a todos os gregos anatólios que se evadiram de território turco (Toynbee, 1980).

          A “congregação” do povo grego dentro das fronteiras de um Estado Nacional, foi realizada em estágios ao longo de aproximadamente 130 anos, com perdas cruéis  à população das zonas de guerra, onde os gregos e os turcos tinham vivido geograficamente mesclados  até serem separados pelos massacres  e expulsões ocasionadas pelas hostilidades.  São elas:  (1) a  Guerra da Independência (1821 a 1829),  (2)  as Guerras Balcânicas (1912 a 1913), (3) a Guerra Greco-Turca, que teve como teatro de operações a região da Anatólia, saga esta acima citada e  (4) a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945).

          Em todos esses estágios, não tanto episódicos,  notou-se  uma heróica resistência do povo grego (1)  à seus governantes otomanos,  (2) contra às idéias expansionistas de seus vizinhos fronteiriços balcânicos, e que ainda está latente naquela região, (3) quanto ao  esforço nacional para  o estabelecimento  de refugiados  após a derrota na guerra na Ásia Menor, e (4) contra os  exércitos  invasores  que desencadearam a Segunda Grande Guerra do século XX, produto das ideologias  totalitárias européias, períodos   esses,  onde os  gregos participaram ativamente.

                Ocupando lugar de destaque no concerto mundial,  a Grécia é membro de inúmeras  organizações internacionais, inclusive membro da União Européia desde o início do decênio dos anos 1980, reconhecida que é pelas nações do mundo, como um baluarte da paz universal.

          Este fato é notável em todas as manifestações em  que a Grécia participa. 

 

8       Da Identidade Grega

 

“Todos os seres humanos atualmente vivos têm uma herança de igual extensão.   .....   Os gregos modernos tiveram de digerir  um passado bizantino e um passado helênico, e as atitudes bizantinas e helênicas diante da vida são não apenas diferentes entre si, mas são também antitéticas.”

 

            Arnold Toynbee

 

    

 

          A identidade  grega, como se pode observar, é um conjunto de fatos isolados  agindo em interação permanente. Cito alguns pontos para que se entenda onde atualmente  as grécias  estão presentes e onde a Grécia atual como um todo,   mais  se identifica .  Nenhum grego moderno “abandona” sua vila. Pode emigrar, ir para os mais longínquos rincões do planeta, viver em centros urbanos maiores dentro da Grécia Continental ou mesmo em cidades maiores de suas ilhas, mas, onde quer que ele esteja, vivendo no exterior, seu pensamento estará voltado para sua   comunidade de origem  como se fora sua pátria. Exemplificando: se o cidadão é  natural  de Corinto e viver em Atenas, ele sempre que puder, irá rever seus parentes e amigos em seu lugar de origem. Significa dizer que o "xorió" -  aldeia, é sua terra natal e não a troca por nada neste mundo quer em espírito quer em matéria. É o destino atávico de todos os gregos e de seus  descendentes.

          Quanto a sua vivência comunitária, o grego se  organiza em "Kinótitas”, ou seja, associações, que tem não apenas uma  função    recreativa, mas, acima de tudo, uma representatividade  política, social e cultural. E isto vale não apenas para as comunidades da Grécia, mas para todo o aglomerado de gregos  que vieram a se estabelecer fora da Grécia.

          Foi  nessas “Kinótitas”, introduzidas na vida grega pela “Fliki Eteria”  - a associação de amigos da grande causa -,  onde  clandestinamente se desenvolveu a “grande idéia” e preparou o povo para lutar pela  Independência. Tudo isto aliado a uma força ideológica baseada no cristianismo, tendo como baluartes as igrejas e os mosteiros com suas  escolas clandestinas, onde se ensinava (1) a língua grega, (2) a religião cristã e (3) o civismo pátrio, elementos fundamentais e idestrutíveis que  garantiram  o sucesso da causa e  a cultura de um povo que sempre  pretendeu manter-se  presente sobre  a terra e transmitir seus valores às gerações futuras.

          Cada  grego ou seu descendente, ou aqueles aculturados aos  valores helênicos, e aqueles não gregos que amam as grécias,  têm dentro de si, o orgulho de ser grego, viva ele em território grego ou em qualquer ponto distante desta festejada  "era da globalização".  Por mais que as vissicitudes do destino tentem  impedí-lo, jamais um grego ou mesmo um amante da Grécia   esmorecerá, pois, cada qual  tem dentro de si um atavismo profundo, que estabelece o elo de ligação à seus ideais, traçados ao longo de vários períodos históricos em estágios os mais diversos mas  integrados à todas  as grécias. E este é o processo interativo peculiar a todos os gregos,  por fazer parte de uma  cultura, determinado pela  incorporação do ideário grego,  e parte indissociável de seu  ethos que é   catártico e paradigmático.

          Exatamente por utilizar a catársis e os paradigmas, os desafios que os gregos enfrentam   nos passos de sua  existência, cujo destino foi imposto pelas leis de sua  herança cultural, qual seja, o destino de ser grego,  coloca-os diante das realidades humanas com óticas próprias.  Ter um pé na (1) Grécia Clássica, outro no (2) Mundo Bizantino e na Doutrina do Cristianismo, falando  (3) a mesma língua,  manifesta o  orgulho helênico, porque dessa herança, os gregos e seus descendentes puderam  fundamentar os princípios que  institucionalizaram as bases cívicas, éticas  e patrióticas exercitadas na  praxis  do Estado Moderno Grego, elementos estes representam o primado que firma a sua identidade como  gregos modernos.    

 

9       Conclusão             

 

“Uma cidade que é de um homem apenas não é cidade.”

                 

Haemon, in Antígona

 

Como foi acima aludido, a  vida grega é uma eterna catarsis e paradigmática por natureza.  Essa catársis e esses  paradigmas  que fazem parte da  Memória Grega,  contemplam  um rico universo com sentidos próprios no peso que  cada palavra contém e que os clássicos atribuíram com muita felicidade aos atos da humanidade. Assim,  aretê   - virtude,  nómos - lei,  dikê  - justiça,  demos  - povo,  koinonía  - comunidade,  philia  - amizade, sophrosyne - moderação, cosmiotes -   ordenação,  geometriké isotes - igualdade geométrica, homoiotes -  similitude, isorropia  - equilíbrio,  isonomia ton dynámeon  - equilíbrio dos poderes, physis  - natureza, sophia  - sabedoria , lógos   - palavra, hierós - sagrado,  philosophia  - filosofia, homoioi  - semelhantes, laós - povo,  dynamis  - movimento,   anomia   - fora das normas,  pístis  -  fé,  paidéia   - educação,  e tantas mais palavras que dão significado a tantas outras mais  ações humanas, que cada ser humano vivencia  até hoje e que são  utilizadas  não só no  vocabulário comum, mas nos  atos do cotidiano, como “animais sociais” ou “homens políticos”  que cada ser humano  é  constituído, conforme Aristóteles soube  tão bem  conceituar. 

Ter uma participação ativa, permanente, no culto à sua  herança, quer clássica, quer bizantino-cristã,   coloca cada  grego,  a todo momento de sua  existência, diante de desafios permanentes, porque este também é o seu  destino. Como também, cada grego sabe, que para garantir o mantenimento dos  valores culturais como gregos modernos,  depende desta postura, para não ser açodado pela fatalidade de deixar de existir. Esta postura é o que vem garantindo o princípio de  responsabilidade para com   a  sustentação e para com o triunfo da Memória Grega em todos os cenários  de sua universalidade. Esta somatória de fatos é o seu   maior  galardão,  pois a Memória das grécias  reflete-se no concerto de um sistema global, porque   deixou de ser só  uma idéia, para se tornar um ideário de vida para todos os gregos que vivem na Grécia e em todos os rincões desta "aldeia global".      

 

 

         

 

10     Referências

 

ARISTÓTELES. Política. Veja Universidade, Lisboa, Portugal, 1998, 670 p

                  

BRAUDEL, Fernand, Gramática das Civilizações, Martins Fontes Editora, São Paulo,

      1989, 506 p

 

FINLEY, Moses I.. Aspectos da Antiguidade, Edições 70, Lisboa, 1968, 238 p

 

    ____ ,      Os Gregos Antigos, Edições 70, Lisboa, 1963, 179 p

 

GLOTZ, Gustave. A Cidade Grega. Difel, Rio de Janeiro, 1980,355 p

 

JAGUARIBE, Hélio et al. A Democracia Grega, Editora Universidade de Brasília,

     Brasília, 1982, 150 p

 

LÉVÉQUE, Pierre. O Mundo Helenístico, Edições 70, Lisboa, 1967, 248 p

 

MORRALL, John B. Aristóteles. Editora Universidade de Brasília, Brasília – DF,

      2000, 125 p

 

MOSSÉ, Claude. As Instituições Gregas, Edições 70, Lisboa, 1968, 215 p

 

MUNFORD, Lewis. A Cidade na História, 2 vol,  Editora Itatiaia, Belo Horizonte,

       1965, 830 p

 

RUNCIMAN, Steven. A Teocracia Bizantina, Zahar Editores, Rio de Janeiro,

     1978, 132 p

 

    ____ ,     A Civilização Bizantina, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 233 p

 

TOYNBEE, Arnold, J.. Helenismo - História de uma Civilização, Zahar Editores,

      Rio de Janeiro, 1969, 232 p

 

   ____ ,     A Herança dos Gregos, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1984, 361 p

 

   ____ ,     Experiências, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 1970,  432 p

 

VERNANT, Jean-Pierre. As Origens do Pensamento Grego, Difel, Rio de Janeiro,

      1977, 97 p 

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DE GRUPOS ASSOCIATIVOS, PHΙLÓPTOHOS & SIMILARES

 

 

Constantino Comninos

Professor e Cônsul Honorário da Grécia em Curitiba.

                                                                                                                                               

 

 

"Qual é o vínculo entre os gregos de hoje (os gregos modernos) e os gregos bizantinos, helênicos e micênicos? Porque chamamos a todos de gregos, a despeito das flagrantes diferenças entre suas respectivas civilizações e atitudes diante da vida? Porque os gregos modernos sentem que eles, os gregos bizantinos e os gregos helênicos são um mesmo povo? A resposta que se sugere inicialmente é que o vínculo é a língua grega."

 

Arnold J. Toynbee

 

Sumário: 1. Resumo. 2. Introdução. 3. Da estrutura organizacional grega. 4. Das entidades vinculadas gregas. 5. Das alternâncias históricas. 6. Conclusão. 7. Referências.

 

1        RESUMO

 

Este texto trata de apresentar alguns pontos de vista    pessoais, conquanto fundamentados em vivência comunitária grega. Também se baseia em leitura especializada. Procura mostrar, singelamente, alguns aspectos que possam definir certos caminhos, quem sabe... a seguir.

 

2        INTRODUÇÃO

 

"O  fundamento   da  democracia ateniense era a soberania popular."

Claude Mossé

 

 

Este texto não tem outra finalidade a não ser, a de mostrar uma parte da história vivenciada pelos gregos do Paraná, salientando a da maioria que escolheu Curitiba como seu domicílio, inclusive minha família, que se deslocou do interior do Paraná, para nesta cidade residir há mais de meio século.

Por outro lado, tomo a liberdade de apresentar este texto, mais como contribuição do que por jactância. Desejo por outro lado, expressar a minha gratidão a todos aqueles que permitiram, ao longo destes anos, a minha vivência helênica, participando de todas as suas manifestações e presenças neste território, a quem devo, a complementação da minha educação grega familiar.

Somos um povo que crê em mitos e ritos. Significa dizer, que acreditamos na força de nossas tradições, algumas milenares. Em se tratando de religião, o cristianismo ordodoxo grego, que se mantém, com seus valores, dogmas e produto de decisões conciliares, representando a pedra basilar de nosso ethos.

Com humildade, ouso lembrar, em nome de nossas tradições, que: (l) a Associação Helênica, é a representante do povo, no caso, gregos e descendentes, e , para o entendimento organizacional grego, é a garante da legitimidade grega no exterior;  (2) a igreja – naós -, representa a religião cristã ortodoxa grega, pela qual, por iniciativa de seus líderes, iniciou-se a luta pela Independência da Grécia aos 25 de março de 1821;    (3)   o Consulado, seja de Carreira ou Honorífico, representa o Governo Grego como o agente do Estado Grego Moderno, soberano e reconhecido pelas demais nações. Os  três segmentos citados, compõem     (4)  a nação grega, sociologicamente organizada, com suas tradições e valores.

As entidades filantrópicas, são instrumentos decisivos na conquista de muitas obras; como exemplo lembro o que ocorreu com as escolas clandestinas de língua grega agasalhadas pelas igrejas e mosteiros, e, pelas entidades filantrópicas subterrâneas, durante o período de ocupação turco-otomana, para juntamente com as práticas religiosas cristãs ortodoxas, garantir o (5) civismo pátrio aliado ao legado lingüístico e literário da língua grega que garantiu a nós gregos, entre tantas razões de ser, o direito de existir como povo e a formação do nosso Estado Nacional Moderno.

 

3        DA ESTRUTURA ORGANIZACIONAL GREGA

 

 

"O passado heróico precisava tão-somente de uma atenção passiva que assegurasse que todos se lembrassem dele, na versão aceita, em todas as ocasiões adequadas, e que cada geração futura mantivesse esse conhecimento e o usasse dos mesmos modos,"

 

M. I. Finley

 

Na minha percepção, creio, importante ressaltar, como nós, gregos, nos organizamos fora da Grécia.

Normalmente, e por tradição, criamos uma entidade associativa, que no exterior, devido as várias legislações e formas de organização política dos países, pode ter as mais variadas denominações. Para os gregos esta entidade leva o nome de KINÓTITA, que nada mais é do que a extensão das organizações menores (vilas, povoados e similares) que vicejam em toda a Grécia, desde tempos memorais.

Ao lado desta KINÓT1TA, mister se faz, a existência de um igreja, uma escola - que pode ser denominada paroquial -, e uma sede associativa. Estes segmentos, tem uma função específica, como o próprio nome os caracteriza.

Atrelada a igreja, deve haver uma FILOPTOHOS, que também, devido as formas de organização de cada país pode ter denominações variadas, como "liga filantrópica de senhoras", "associação filantrópica das senhoras" - e define-se a finalidade.

 

 

4        DAS ENTIDADES VINCULADAS GREGAS

 

"A Ecclesia não era uma instituição, a falar com propriedade, era o povo reunido e teoricamente, pelo menos, todos os cidadãos atenienses tinham, não apenas o direito, mas o dever de assistir às sessões."

Claude Mossé

 

 

Em Curitiba, a entidade filantrópica - filóptohos -, nasceu antes da Associação Helênica do Paraná. Ocorreu, no início dos anos 1950. O Padre Harídimos Papadákis de São Paulo, que vinha regularmente para Curitiba realizar mistérios religiosos como casamentos, balizados e bênçãos em suas visitas pastorais, no dia da - Issodia tis Theotókou - , na casa onde se hospedava, no sobrado da Rua Marechal Deodoro, 20 - Casal Cosmos e Afrodite Comninos (que assumiu a direção da entidade e a presidiu por muitos anos - até 1969), reuniu um grupo de senhoras e colocando Cr$ 10,00 sobre uma pequena bandeja, disse:  "que este seja o início de uma entidade filantrópica de senhoras, cuja finalidade será trabalhar para atender os necessitados, mas também, arrecadar recursos para a construção de uma igreja ortodoxa grega em Curitiba". E assim aconteceu. Tanto que,   a Associação Helênica do Paraná, foi precedida por esta entidade filantrópica e a igreja funcionou em propriedade da família Joanidis, em um conjunto de escritório no 3° andar de um pequeno edifício na Travessa Alfredo Bufren, onde era a sede do então Vice-Consulado Honorário da Grécia em Curitiba, cujo Vice-Cônsul era o senhor João Savas Joanidis.

Com a arrecadação realizada pela Philóptohos por meio de lanches periódicos nas casas dos gregos tanto os que para o Paraná vieram antes dos anos 1940, como os que por estas paragens se assentaram a partir dos anos 1950, foi possível, na segunda gestão da Associação Helênica do Paraná (1963/64), adquirir um pequeno terreno no Bairro do Pilarzinho, exatamente ao lado do Clube Vasco da Gama, com a finalidade de construir uma igreja e uma sede associativa.

 

A bem da verdade, uma parte razoável do dinheiro arrecadado pela entidade, era destinado para atender gregos imigrantes necessitados e, para pagar os enterros de alguns, que antes de conseguirem atingir um bem estar almejado, não suportaram a mudança do clima, aliada as agruras da vida na diáspora.

 

Com a fundação da Associação Helênica do Paraná em 26 de agosto de 1962, em uma sala de aula da então Faculdade Católica do Filosofia, Ciências e Letras, reuniram-se cerca de 70 gregos e descendentes, aprovando um estatuto apresentado pelo Senhor Estefano Lambros, que se baseou em instrumento legal de uma "Liga Filantrópica Grega", se não me engano, uma das de São Paulo, haja vista, que, a época, entendia-se a Kinótita, como se uma entidade filantrópica fosse.

O segundo terreno adquirido - com a venda do anterior e em grande parte do numerário arrecadado e destinado pela entidade filantrópica das senhoras á Associação Helênica do Paraná, é onde se construiu, a partir de 1968 com o lançamento da pedra fundamental, a igreja e o salão paroquial da KÏNÓTITA. Neste período, já prestava seus serviços religiosos, o Padre Panaghiótis Meintánis, itinerante, pois, atendia três comunidades: a de Curitiba, a de Florianópolis e a de Porto Alegre, percorrendo inclusive, outros municípios dos três Estados, quando solicitado. Um segundo terreno contíguo foi adquirido alguns anos mais tarde, que é onde se encontra a Casa Paroquial e a casa da zeladoria.

Com o passar dos anos, e frente a exigência da legislação nacional do Brasil, foi necessário atualizar o Estatuto da Associação Helênica do Paraná, que passou ao atual formato desde finais dos anos 1980.

Se no Estatuto da Associação Helênica do Paraná, consta um Conselho Paroquial, cabe a este conselho assistir   a igreja em suas necessidades. Entidades vinculadas, emanam de atos da Diretoria da Associação ou até, se for o caso, de decisão tomada em assembléia. Quanto a Filóptohos, por tradição, é, segundo norma canônica da Igreja Ortodoxa Grega, uma entidade para-autônoma, sempre associada à igreja, conforme se observa em todas as entidades paroquiais gregas, quer as que na Grécia existam, como as que em outros países se encontram, colaborando no engrandecimento quer da igreja, em todas as suas manifestações, quer da comunidade como um todo.

Pela minha experiência de vida comunitária, inclusive na Grécia e nos Estados Unidos onde a presença grega é notável, observa-se em todas' as cerimônias, a Filóptohos, representada pelas senhoras e o Conselho da Igreja, representado  pelos membros mais destacados daquela comunidade. Em algumas comunidades, há outras entidades que se fazem presentes em missas e solenidades, todas elas, anunciando seus estandartes coloridos, e em alguns casos, os seus integrantes se apresentando com vestimentas típicas.

No caso do Paraná, em poucas oportunidades existiu um conselho, que mais se confundiu com a Filóptohos, ou, se me permitem, por comodidade ou sob a alegação de que "somos poucos",  com a Diretoria da Associação Helênica.

 

5        DAS ALTERNÂNCIAS HISTÓRICAS

 

"Se, no Conselho, os gérontes só têm voto consultivo, parece pelo menos que as suas atribuições se estendem a todos os negócios de monta. Acompanham o rei na Assembléia e nela ocupam lugares reservados."

 

Gustave Glotz

 

Ao longo de todos estes anos, e lá vai meio século de pré-organização, organização e maturidade das entidades gregas no Paraná: liga filantrópica -filóptohos, igreja - naós -, associação - kinótita, escola (voluntária) - scholío -, grupos de jovens - neoléa -, e outros grupos como o desportivo, o do távli e quejandos,   percorremos trilhas e construímos os nossos caminhos com dedicação, voluntariedade, boa vontade, procurando na fé cristã, encontrar a inspiração para os nossos atos. Digo isto pois, não consigo em sã consciência, dissociar a igreja da associação, independentemente se estas entidades estão constituídas   por diretorias, conselhos ou qualquer tipo de gestão. São segmentos unívocos, jamais antagônicos.

Algumas entidades acima citadas e até outras que possam ter existido pela iniciativa de alguns participantes ativos, mesmo tendo passado por algumas crises, normais entre os seres humanos, notadamente entre gregos, ainda se encontram atuantes devido a vontade política de seus participantes. Algumas desativaram suas atividades, o que é lastimável. Outras novas vem surgindo.   Ressalte-se que nenhuma destas entidades é concorrente de qualquer uma delas, uma vez, tendo finalidades distintas mas um único objetivo, qual seja, concorrer para o engrandecimento da comunidade grega em toda a sua extensão.

A iniciativa de se revigorar a Filóptohos, com outro rumo, a começar pela ausência de cargos na Diretoria, a presença dos jovens como partícipes da entidade, é um novo caminho que se está a oferecer  em meio ao mundo moderno que exige criatividade, sabedoria, persistência, paciência, humildade, boa vontade, disciplina e tenacidade para a sobrevivência e permanência de uma organização complexa , mesmo desejando manter-se na simplicidade, como a nossa.

 

6        CONCLUSÃO

 

"Quando se sabe o que era, em princípio, o direito de cidade nas cidades gregas e se vê o que foi, realmente, no século V [a. C.], e particular em Atenas, compreende-se bem que não há disposições legais capazes de sobrepor-se aos costumes."

 

Gustave Glotz

 

Espero, com este texto, ter contribuído com algumas informações que possam orientar a nossa nova maneira de ver as coisas. Esta afirmativa, tem a ver com a nova presença grega no cenário internacional, haja vista, que na medida em que a Grécia se envolve cada vez mais no Direito Comunitário Europeu, necessário se faz, mudar a nossa organização, até mesmo, para poder reivindicar e usufruir de certos benefícios que o Governo Grego vem destinando às comunidades de todos os continentes.

Há poucos anos, a Grécia adotou uma nova organização municipal. As suas mais de 5.000 aldeias, organizadas em Kinótitas, passaram a constituir municípios, integrando várias kinótítas. Assim, os conselhos das kinótitas, continuam a existir como entidades consultivas mas não deliberativas, que hoje cabe ao Conselho Municipal, com representantes eleitos pelas antigas aldeias - as kinótitas, que continuam com suas sedes e diretorias próprias, como se verifica com as nossas do exterior.

Quanto as igrejas - naós - das comunidades, todas mantém suas filóptohos, realizando um trabalho voluntário de atenção aos mais necessitados e ao mesmo tempo, ajudando a comunidade nas obras sociais que se fazem necessárias em cada uma delas.

 

7        REFERÊNCIAS

 

ARISTÓTELES. A Constituição de Atenas. Edição Bilíngüe. São Paulo. HUCITEC, 1995.

 

PINLEY, M. I. Uso e Abuso da História. São Paulo, Martins Fontes, 1989.

 

GLOTZ, Gustave. A Cidade Grega. São Paulo, DIFEL, 1968.

 

MOSSÉ. Claude- As Instituições Gregas. Lisboa, Edições 70, 1980.

 

TOYNBEE, Arnold J.. A Herança dos Gregos. Rio de Janeiro, ZAHAR Editores, 1984.

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